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Cintia Blank
integração saúde-emocional psicanálise autoconhecimento

Corpo, mente e emoção: por que tratar um sem o outro não funciona

Cintia Blank ·

Quando foi a ultima vez que voce sentiu algo no corpo e soube, imediatamente, que nao era “so fisico”? Aquele no no estomago antes de uma conversa dificil. A tensao nos ombros que nao cede com nenhuma massagem. O cansaco que permanece mesmo depois de uma noite inteira de sono. O coracao acelerado sem razao aparente.

Essas experiencias sao tao comuns que aprendemos a ignora-las ou a trata-las de forma isolada: um analgesico para a dor, um relaxante para a tensao, um exame para o cansaco. E, muitas vezes, os exames nao mostram nada. O corpo esta “bem”. Mas voce sabe que nao esta.

Essa desconexao entre o que o corpo comunica e o que conseguimos ouvir e um dos sinais mais evidentes de uma cisao que permeia toda a nossa cultura: a separacao entre corpo, mente e emocao.

A heranca da fragmentacao

A divisao entre corpo e mente nao e natural. E historica. Herdamos de seculos de pensamento ocidental a ideia de que somos compostos por partes separaveis: uma mente racional que deveria governar, um corpo instintivo que deveria obedecer, e emocoes que deveriam ser reguladas por um ou por outro.

Essa visao fragmentada teve consequencias profundas na forma como cuidamos de nos mesmos. Criamos especialidades medicas para cada orgao, psicoterapias que so trabalham com a fala, praticas corporais que ignoram a dimensao psiquica, abordagens espirituais que desprezam o corpo material. Cada pedaco do humano tratado em seu compartimento, como se fosse possivel curar a parte sem considerar o todo.

Para muitas mulheres, essa fragmentacao e especialmente dolorosa. O corpo feminino foi historicamente objeto de controle externo — medico, religioso, estetico, social. Muitas mulheres aprenderam a tratar o proprio corpo como algo a ser domado, corrigido ou transcendido, raramente como aliado, fonte de sabedoria ou territorio de presenca.

O corpo como portador de memoria

A psicanalise contemporanea, especialmente em suas vertentes integrativas, reconhece algo que sabedorias antigas sempre souberam: o corpo guarda memoria. Nao apenas a memoria explicita, narrativa, que a mente organiza em historias, mas uma memoria implicita, pre-verbal, inscrita nos tecidos, nos padroes de tensao, nos ritmos fisiologicos.

Uma mulher que cresceu num ambiente onde precisava estar permanentemente alerta pode carregar essa vigilancia no corpo decadas depois, mesmo vivendo em seguranca. Os ombros permanecem erguidos, a mandibula cerrada, a respiracao superficial. Nenhuma terapia exclusivamente verbal vai dissolver essas marcas se nao houver, tambem, uma escuta do corpo.

Da mesma forma, experiencias de prazer, acolhimento e seguranca ficam registradas no corpo. Quando, no processo terapeutico, uma paciente consegue acessar uma respiracao mais profunda, um relaxamento que nao vinha, ou lagrimas que estavam represadas, algo acontece que vai muito alem da compreensao intelectual. O corpo esta processando, integrando, reorganizando.

Quando a emocao nao encontra palavra

Ha emocoes que nunca foram nomeadas. Experiencias que aconteceram antes da linguagem, ou que foram intensas demais para que a palavra pudesse conter. Essas experiencias nao desaparecem por nao terem nome. Elas habitam o corpo como sensacoes difusas, desconfortos inexplicaveis, reacoes que parecem desproporcionais.

Na clinica integrativa, trabalhamos com a compreensao de que nem tudo precisa ser traduzido em palavra para ser processado. As vezes, o caminho terapeutico passa por permitir que uma sensacao corporal exista, se amplie, se transforme — sem a pressa de interpreta-la. Outras vezes, e o corpo que oferece a chave para que uma palavra finalmente surja, dando nome ao que antes era apenas mal-estar.

A dimensao da mente: necessaria, mas nao suficiente

Valorizar o corpo e a emocao nao significa desvalorizar a mente. O pensamento reflexivo, a capacidade de narrar a propria historia, a construcao de sentido — tudo isso e fundamental no processo analitico.

O que a abordagem integrativa questiona nao e a importancia da mente, mas sua suposta supremacia. Quando tratamos a mente como unica via de acesso ao psiquismo, empobrecemos o trabalho clinico. Compreender racionalmente por que se repete um padrao nao e, por si so, suficiente para transforma-lo. Quantas vezes voce ja entendeu perfeitamente uma dinamica e, ainda assim, continuou presa nela?

Isso acontece porque a compreensao intelectual opera numa dimensao. A transformacao real exige que algo se mova tambem no corpo, nos afetos, na forma como nos posicionamos nas relacoes. Exige, em outras palavras, integracao.

A dimensao espiritual: sem misticismo, com profundidade

Ha uma dimensao da experiencia humana que nao se esgota no corpo, na mente ou nas emocoes. Podemos chama-la de dimensao espiritual, existencial ou de sentido — o nome importa menos do que a experiencia.

Trata-se da busca de significado, da relacao com algo que nos transcende, da experiencia de conexao com a vida em sua totalidade. Muitas mulheres em processo de maturidade relatam uma necessidade crescente de sentido que vai alem do pragmatico: nao basta funcionar, e preciso que a vida signifique algo.

A psicanalise integrativa acolhe essa dimensao sem cair em dois extremos igualmente empobrecedores. De um lado, o reducionismo que trata toda experiencia espiritual como sublimacao, defesa ou ilusao. De outro, o misticismo que abandona o rigor clinico em favor de explicacoes magicas. Entre esses dois polos, existe um espaco de escuta respeitosa e inteligente, que reconhece a legitimidade da experiencia sem abrir mao do pensamento critico.

Por que tratar apenas uma dimensao nao funciona

Quando uma paciente chega ao consultorio com ansiedade cronica, podemos olhar para essa queixa de muitas formas. Pela mente, podemos explorar os pensamentos catastroficos, as crencas limitantes, os padroes cognitivos. Pelo corpo, podemos observar a respiracao, as tensoes, os padroes posturais. Pelas emocoes, podemos investigar os afetos subjacentes — medo, raiva, tristeza — que a ansiedade encobre. Pela dimensao existencial, podemos perguntar: o que essa ansiedade esta tentando comunicar sobre a forma como essa mulher esta vivendo?

Nenhuma dessas perspectivas, isoladamente, da conta do fenomeno. Mas quando articuladas, elas compõem um quadro rico, complexo e verdadeiramente util para o processo de transformacao.

E esse o principio da clinica integrativa: nao escolher uma dimensao em detrimento das outras, mas tecer entre elas um dialogo permanente, guiado pela singularidade de cada paciente e pelo momento especifico do processo.

O consultorio como espaco de inteireza

O que muitas mulheres buscam, ainda que nem sempre saibam nomear, e um espaco onde possam ser inteiras. Onde o corpo nao precise ficar do lado de fora da porta. Onde as emocoes nao precisem ser traduzidas imediatamente em pensamentos para serem validas. Onde as questoes de sentido nao sejam tratadas como desvio do foco terapeutico.

Esse espaco nao e fantasioso. Ele pode ser construido em cada sessao, em cada encontro, quando a analista esta disposta a escutar com todos os seus proprios sentidos — nao apenas com os ouvidos.

Para refletir

Se voce esta num momento da vida em que sente que algo nao se encaixa — que o tratamento do corpo nao resolve o que a mente carrega, que a terapia pela fala nao alcanca o que o corpo grita, que a busca de sentido nao se satisfaz com respostas prontas — talvez o que esteja faltando nao seja mais informacao ou mais tecnica.

Talvez o que esteja faltando seja integracao. A permissao para ser, finalmente, um ser inteiro. Corpo, mente, emocao e sentido — nao como pecas separadas de um quebra-cabeca, mas como dimensoes vivas de uma mesma existencia.

A sua existencia.

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