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Cintia Blank
saúde-emocional integração maturidade psicanálise

Maturidade emocional não é controle: é integração

Cintia Blank ·

O que voce entende por maturidade emocional? Se a primeira imagem que surge e a de alguem que nao se desestabiliza, que mantem a calma em qualquer circunstancia, que “nao se deixa levar” pelas emocoes — entao talvez valha a pena revisitar essa ideia. Porque essa definicao, embora amplamente difundida, confunde maturidade com supressao. E supressao, por mais que se disfarce de equilibrio, e uma forma de empobrecimento da experiencia humana.

O mito do controle emocional

Vivemos numa cultura que valoriza o controle. Controle do corpo, do tempo, das financas — e, claro, das emocoes. A pessoa “emocionalmente madura” seria aquela que consegue administrar seus afetos como quem administra uma empresa: com eficiencia, previsibilidade e minimo de desperdicio.

Essa logica, herdada de uma visao racionalista e produtivista, ignora algo fundamental: emocoes nao sao recursos a serem gerenciados. Sao dimensoes vivas da experiencia, portadoras de informacao, sentido e potencia transformadora. Quando tentamos controla-las, nao as eliminamos — apenas as empurramos para o subsolo psiquico, de onde continuam operando, agora sem nossa consciencia.

A raiva “controlada” se transforma em ressentimento cronico ou somatizacao. A tristeza “superada” rapidamente demais se converte em apatia. O medo “vencido” pela forca de vontade reaparece como ansiedade difusa. O controle emocional, longe de ser sinal de maturidade, e frequentemente indicador de dissociacao.

O preco especifico para as mulheres

Para mulheres, a exigencia de controle emocional carrega um peso adicional. Historicamente, a emotividade feminina foi patologizada — rotulada como histeria, instabilidade, fraqueza. Em resposta, muitas mulheres desenvolveram uma hipervigilancia sobre seus proprios afetos, um monitoramento constante para nao parecerem “emocionais demais”.

Essa vigilancia e exaustiva. E, paradoxalmente, afasta essas mulheres justamente daquilo que lhes permitiria amadurecer de verdade: o contato genuino com a propria vida emocional.

Entao, o que e maturidade emocional?

Se nao e controle, o que e? Na perspectiva da psicanalise integrativa, maturidade emocional e a capacidade de integrar as diferentes partes da experiencia interna sem precisar negar, suprimir ou dissociar nenhuma delas.

Isso inclui varios aspectos que, juntos, compoem uma forma muito diferente de se relacionar consigo mesma.

Tolerancia a ambivalencia

Amadurecer emocionalmente significa suportar a coexistencia de sentimentos contraditorios. Amar e sentir raiva da mesma pessoa. Desejar mudanca e ter medo dela. Sentir alegria e tristeza simultaneamente. A mente imatura exige coerencia — ou ama ou odeia, ou quer ou nao quer. A mente madura sustenta o paradoxo.

Essa capacidade nao e natural nem automatica. Ela se desenvolve ao longo do tempo, em contextos relacionais que permitem a experiencia de ser complexo sem ser rejeitado. Por isso, o espaco terapeutico e tao importante nesse processo: ele oferece um vinculo onde a ambivalencia pode existir sem ameaca.

Capacidade de processar experiencias

Maturidade emocional tambem se manifesta na capacidade de processar o que acontece, em vez de apenas reagir. Processar significa dar tempo e espaco interno para que uma experiencia seja sentida, nomeada, compreendida e integrada a narrativa de vida.

Muitas mulheres chegam a analise com uma queixa que, em essencia, se resume a isso: “eu nao consigo parar para sentir.” A vida e tao acelerada, as demandas tao constantes, que o processamento emocional fica permanentemente adiado. E o que nao e processado se acumula — no corpo, nos sonhos, nos sintomas, nas repeticoes relacionais.

Responsabilidade sem culpa

Outro aspecto da maturidade emocional e a capacidade de assumir responsabilidade por si mesma sem cair na armadilha da culpa paralisante. Responsabilidade e reconhecer o proprio papel nas dinamicas que se vive. Culpa e um afeto que aprisiona, que transforma tudo em divida impagavel.

Mulheres, em particular, sao culturalmente treinadas para a culpa. Culpa por trabalhar demais ou de menos. Culpa por cuidar de si. Culpa por sentir raiva. Culpa por nao ser suficiente. A maturidade emocional nao elimina a culpa magicamente, mas permite olhar para ela com discernimento: de onde vem? A quem pertence? O que ela esta protegendo?

Presenca corporificada

Por fim, maturidade emocional tem uma dimensao corporea que raramente e mencionada. Estar emocionalmente maduro e tambem estar presente no corpo, sentir as emocoes como experiencias encarnadas, nao apenas como conceitos mentais.

Muitas mulheres aprenderam a viver “do pescoco para cima”, desconectadas das sensacoes corporais. Essa desconexao e uma forma de fragmentacao que limita profundamente a vida emocional. Rehabitar o corpo — com suas tensoes, seus ritmos, suas memorias — e parte essencial do amadurecimento.

O caminho da integracao na pratica clinica

Na psicanalise integrativa, o trabalho com maturidade emocional nao se da pela via da prescricao ou da orientacao. Ninguem amadurece porque recebeu instrucoes para isso. O amadurecimento acontece quando se criam condicoes para que a pessoa possa, gradualmente, sustentar mais de si mesma.

Isso significa, na pratica clinica, acolher a raiva sem tentar resolve-la imediatamente. Permitir o silencio sem preenchê-lo. Escutar o corpo quando ele fala uma linguagem diferente da mente. Sustentar a presenca quando a paciente quer fugir. Nomear o que ainda nao tem nome.

E, fundamentalmente, significa oferecer uma relacao onde a paciente possa experimentar ser vista em sua inteireza — nas partes bonitas e nas desconfortaveis, nas forcas e nas vulnerabilidades — sem que isso gere afastamento.

Maturidade como movimento, nao como destino

E importante dizer: maturidade emocional nao e um estado que se atinge de uma vez por todas. Nao e um diploma que se conquista. E um movimento continuo, um processo de ir e vir, de avanco e recuo, de integracao e nova fragmentacao e nova integracao.

Ha momentos em que regredimos. Ha situacoes que nos desorganizam. Ha perdas que nos fragmentam novamente. E tudo isso faz parte. Maturidade nao e nunca cair — e ter recursos internos para se reorganizar depois da queda. E ter aprendido, no corpo e na alma, que e possivel se reunir depois de se dispersar.

Uma reflexao para levar consigo

Talvez a pergunta mais honesta que possamos nos fazer nao seja “eu sou emocionalmente madura?”, mas sim: “eu estou disposta a sentir o que precisa ser sentido?” Porque e ai, nessa disposicao corajosa e vulneravel, que a maturidade real comeca.

Nao no controle. Nao na performance de equilibrio. Mas na integracao — imperfeita, desconfortavel e profundamente humana — de tudo o que somos.

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